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Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

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Um pouco de história da Igreja da Consolação

 

Um pouco de história da Igreja da Consolação em São Paulo.

 

Ás margens do Caminho de Pinheiros, antiga rua da Consolação, em terras de Ângela Vieira que se estendiam até onde é hoje a avenida Paulista, foi edificada em 1799 a Igreja de Nossa Senhora da Consolação.

 

O documento dirigido ao bispo diocesano da época, d. Mateus de Abreu Pereira, requeria na íntegra: “Exmo. Revmo: Diz Luiz da Silva e mais Irmãos devotos Senhora da Consolação que elles alcançarão huma data de terra por detraz do Cemitério e como os supplicantes desejam alcançar o despacho de V. Exa. Rev. lhe conceda huma licença para formarem uma Ermida no logar que tem explicado pello tempo vindouro que os mesmos Irmãos hão de formar o seu Patrimônio para assim poder-se celebrar o sacrifício da Missa, e como não podem fazer sem Licença, portanto P. a V. Exa. Revma. seja servido atender o que os supplicantes implorão”. Tendo recebido parecer favorável, Luiz da Silva e Irmãos não perderam tempo e, com auxílio de esmolas angariadas, deram início à construção da capela, numa pequena elevação e desviada da rua, inaugurada no ano seguinte.

 

A região que cercava a humilde Igreja da Consolação nada tinha de aprazível: barro, lama, grandes poças de águas estagnadas faziam parte do cenário que mereceu a visita de um fiscal enviado pela Câmara na sessão de 15 de marca de 1834 a fim de examinar “outro pantanal que há na estrada da Igreja da Consolação, na subida do morro”. Mas a edificação da Igreja trouxe sorte àquela área, descrita como “um lugar bastante afastado da cidade e sem moradores” (a ponto de ali aconselhada a construção de um novo cemitério na cidade): referências a arruamentos, alinhamentos, aterros de pantanais, construção de muros são comuns nas Atas da Câmara da época.

 

O bairro ai aos poucos definindo sua fisionomia. Não tardaram a surgir obras públicas relevantes visando proporcionar maior conforto aos moradores das casas que começaram a surgir pelos lados da igreja, estrada acima, em direção a Pinheiros. A cidade se estendia e se desenvolvia, exigindo da humilde capela acomodações mais amplas, a fim de receber um número cada vez maior de fiéis. Data de 1840 a primeira reforma, que providenciou cinco janelas, duas torres, porta principal e duas laterais, largas escadas de acesso e frente acolhedora.

 

A Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e São João Batista, instituída logo em seguida, imprimiu nova importância a igreja. Um de seus objetivos era o de “amparar os morféticos que em grade número vagam pela Província”. Outras doenças, porém, exigiram os cuidados e a pronta resposta da Irmandade. Como no caso da epidemia de cólera morbus que atingiu São Paulo em 1855. Tão grave foi o surto que no pálio da igreja montou-se uma enfermaria com 30 leitos. O reconhecimento das iniciativas da Irmandade (da qual participava o Barão de Tietê, José Manuel da Silva) veio em forma de prédio doado pela Santa Casa de Misericórdia, concedendo à entidade o privilegio de tratar dos doentes acometidos do mal de Hansen. No altar-mór, a tudo assistindo a abençoando, estava a pequena imagem portuguesa de Nossa Senhora da Consolação, esculpida em madeira e papel machê: De pé sobre uma esfera estrelada apresenta na mão direita um cetro e tem no peito o Divino Espírito Santo. Possui sinais, nas orelhas, de ter usado brincos, o que reforça sua origem portuguesa” (Catálogo do Museu de Arte Sacra de São Paulo). Como aparecera essa imagem, nesse escondido recanto da estrada, ninguém sabe. A versão mais aceita é que um padre agostiniano, de viagem para Sorocaba, aí parara para celebrar missa, deixando sobre o altar a imagem co a finalidade de lhe divulgar a devoção.

 

Com uma população de 3.577 habitantes, “sendo 342 escravos e 8 eleitores” (Azevedo Marques), afluência cada vez maior de devotos que ocorriam em busca das graças de Nossa Senhora da Consolação, a igreja foi elevada, em 1870, à condição de Paróquia, tendo como oragos Nossa Senhora da Consolação e São João Batista, e com poderes sobre a capela de Santa Cruz das Perdizes (até 1879), sobre a de Santa Cecília (até 1891) e também sobre as igrejas do Divino Espírito e de Nossa Senhora do Monte Serrate, do bairro de Pinheiros. Seu primeiro pároco, o cônego Carlos Augusto Gonçalves Benjamin, por razões não registradas, pediu dispensa do cargo alguns anos depois, sendo substituído pelo cônego Eugênio Dias Leite, que, na expressão dos cronistas da época, dotou o templo de Nossa Senhora da Consolação “de ricos paramentos e custosas alfaias”.

 

Mas a antiga e acanhada igreja de paredes de taipa levantada por Luiz da Silva e Irmãos não resistiu às exigências dos tempos. Na virada do século, mais exatamente em 1907, foi derrubada. Em seu lugar construiu-se a igreja que hoje conhecemos, cuja planta encomendou-se ao professor de arquitetura da Escola Politécnica Dr. Maximiliano Hehl (o mesmo que projetara as plantas das catedrais de São Paulo e de Santos).

 

“Nessa época, a Consolação vivia mergulhada na quietude bucólica de suas chácaras com os casarões aristocráticos da época, rodeados de árvores frondosas. E quantas eram! A de Dona Veridiana Prada, que abrangia toda a parte alta da Consolação, estendendo-se por Higienópolis e Pacaembu afora; a do General Arouche, que ocupava parte da Vila Buarque, largo do Arouche até a avenida São João; a da Marquesa de Santos, que descia da rua Líbero Badaró, alongando-se pelo Vale do Anhangabaú, onde havia uma plantação de chá; o viaduto construído para transpor esse vale ficou conhecido como Viaduto do Chá por causa dessa plantação”.(Reminiscências de um Pároco de Cidade, Mons. Dr. Fco. Bastos).

 

 

Uma figura lendária :

Monsenhor Bastos

 

Impossível reconstituir a história da Consolação sem citar uma figura lendária: Monsenhor Dr. Francisco Bastos, que assumiu a igreja em 1914, em meio às obras de reconstrução paralisadas, herdando esmagadora dívida contraída por seus antecessores. Muito jovem ainda e inexperiente, viu-se, no dia de sua posse, diante de dois oficiais de justiça intimando a pagar 300 contos de réis, no prazo de 24 horas, sob pena de penhora da igreja. Foi árdua sua luta nos tribunais, no que foi auxiliado por uma comissão de paroquianos ilustres, como o Cel. Bento José de Carvalho, Dr. José Carlos de Macedo Soares, Cel. França Pinto, Dr. Rafael Tobias de Aguiar, entre outros. A questão foi resolvida despojando-se a igreja da Consolação de um valioso patrimônio: 150.000 metros quadrados de terrenos, logo abaixo da Faculdade de Medicina. Essa área foi dividida em lotes de 10,20 e 30 metros de frente por 20 de fundo, tendo recebido os credores em pagamento um ou mais lotes, conforme o valor da respectiva promissória. Estava salva a honra da Consolação.

 

Incansável, Monsenhor Bastos apoiou a revolução de 1924, que teve Macedo Soares arvorado em chefe civil. Num barracão improvisado em abrigo, ao lado da igreja, alojou, durante a revolução, mais de 500 pessoas vindas de outros bairros, que ali recebiam duas refeições por dia, preparadas com desvelo e carinho pelas senhoras da paróquia. Ele mesmo nos conta no seu livro Reminiscências de um Pároco de Cidade: “E quando as balas e os petardos começaram a visar a Consolação, foi dentro da própria igreja que se abrigaram os refugiados, principalmente à noite, ao recrudescer do bombardeio. Esperavam que as paredes externas da igreja, feitas de blocos de pedra, fossem para eles seguro anteparo contra as bombas e o matracar constante das metralhadoras”.

 

Formado pela Universidade Gregoriana de Roma em Filosofia e Teologia, o piracicabano e são-paulino roxo Monsenhor Bastos esteve à frente da Paróquia da Consolação durante 47 anos, dos quais 13 dedicados à construção desse imponente templo, do qual ele tanto se orgulhava. “Era a igreja da moda, preferida para os casamentos elegantes, a igreja dos inolvidáveis meses de Maria, das famosas Missas do meio-dia, quando se faziam ouvir ali as mais encantadoras páginas de Liszt, Bach, Schumann, Beethoven, Handel, Mendelson, Brahms, Chopin, às quais os maestros Rui Botti Cartolano e Perdigão sabiam imprimir elevada espiritualidade, ajudados pelo maravilhoso som dos setenta e tantos registros do grande órgão importado da Itália em 1931.” (Reminiscências de um Pároco de Cidade.)

 

Por volta dos anos 50, infelizmente, o bairro passou a sofrer dura transformação, perdendo sua característica de bairro residencial e vendo-se invadir pelo comércio e, pior, pela proliferação de boates e inferninhos. As famílias de sobrenome ilustre foram, uma após a outra, transferindo-se para os Jardins, Pacaembu, Perdizes etc. No lugar destas vieram outras, a maioria formada por migrantes necessitados de amparo. Davagarinho, os nobres casarões com seus jardins bem cuidados foram sendo transformados em cortiços.

 

 

A ameaça de demolição

 

Insensível à tradição e aos brasões, o progresso foi demolido impiedosamente prédios e casarões, abrindo avenidas e ameaçando de demolição a Igreja da Consolação. Planejava-se a ampliação da avenida Ipiranga e sua ligação com a rua Augusta, trajeto esse que passaria por cima da igreja, destruindo-a sem dó nem piedade. Uma visita do então prefeito de São Paulo, Prestes Maia, alterou, com a graça de Deus, os planos de pô-la abaixo. Encantado com a riqueza cultural e o acervo artístico dessa igreja, ele não hesitou em mudar a concepção urbanística daquela área, a fim de preserva-la. Novo risco ela correria mais tarde com a criação da Praça Roosevelt. Salva enfim da fúria das picaretas, a Consolação faz hoje um belo e poético contraste em meio aquele mundo de concreto, com seus vitrais coloridos e suas torres góticas.

 

 

Uma das mais belas igrejas de São Paulo

 

A Igreja da Consolação pode se orgulhar do seu acervo artístico, que se harmoniza com a arquitetura de estilo romântico-bizantino.

 

Merecem destaque:

 

 as torres góticas de 75 metros, que já foram as mais altas de São Paulo;

 o altar-mór, de carvalho, mármore branco e bronze, encomendado em Paris à Maison Forest;

 o carrilhão de cinco sinos – o maior, pesando 2 toneladas, em dó sustenido (Consolatrix); os médios, em fá (Santana) e em sol sustenido (São João Batista), e o menor, em lá sustenido (Santos Anjos) – soaram pela primeira vez em 8 de setembro de 1952, dia da festa da padroeira. O relógio, um dos maiores da cidade, foi construído pela firma inglesa J.B.K. – a mesma que construiu o famoso Big Ben;

 os 45 vitrais coloridos feitos de chumbo e vidro pelas mãos dos artistas da Casa Conrado – a mais famosa e importante oficina do gênero já existente no país;

 os ladrilhos em mosaico, importados de Hamburgo, Alemanha, de mármore de Carrara (Itália), que desenham a fachada da igreja;

 o maravilhoso som do órgão encomendado em Nápoles, Itália, um dos melhores de São Paulo;

 o lustre central de 5 metros de diâmetro, em ferro batido, trabalho artístico característico do Liceu de Artes e Ofícios;

 a porta da entrada, verdadeira jóia trabalhada em ferro forjado batido, criação de três artífices – dois portugueses e um espanhol – serralheiros, que se dedicaram à obra durante 8 meses, em 1930.

“É uma relíquia”, diz Pedro, um dos herdeiros da empresa executora do trabalho, Abreu e Cia., que conclui:

O interior da igreja, alto, amplo, sombrio e fascinante, acolhe o fiel num ambiente de extremo misticismo. As pinturas decorativas – passagens bíblicas ou imagens da vida terrena e espiritual dos santos – são assinadas por nomes consagrados, que emprestaram a sua arte e seus pincéis à beleza do templo. Entre eles:

 Edmundo Cagni não poupou detalhes na pintura mural que encima o altar-mór representando a glória de Nossa Senhora. Ele pintou também uma série de anjos, de nítida influência bizantina, segurando medalhões, cada um deles representando um sacramento.

 Hans Bauer cobriu os 500 metros quadrados da cúpula com as suas duas grandiosas pinturas murais – a da Assunção da Senhora e a da Anunciação da Virgem.

 Oscar Pereira da Silva é o autor das telas A Natividade do Senhor, A Descida da Cruz e a Visita a Santa Isabel, obras de 1926, que circundam o altar-mór. Á entrada da capela há também um painel desse mesmo artista, A Santa Ceia, também datada de 1926. Nessa mesma data, Oscar pintou, na parede externa da sacristia, um mural representando Anchieta e os Índios, evocando os primórdios da História do Brasil.

 Benedito Calixto tem seis telas na capela do Santíssimo: as de São Tarcísio, São Tomaz de Aquino, São Boaventura, Santa Clara e duas cenas dos Discípulo de Emaús, todas obras de 1918, em muito bom estado de conservação. Aliás, toda a capela do Santíssimo foi recentemente restaurada, num esforço representativo do ensejo geral de expandir as obras para todo o templo.

 

Encimando o arco de entrada, as figuras vigilantes dos Apóstolos, em mármore, executadas por um grande artista que trabalhou em São Paulo, Willian Zadig. O artista Sandino Manzini assinou os dois Anjos (pinturas murais) que decoram a laterais junto à entrada; e Manzini Sandro, a pintura mural Os Reis Magos; muitas são as pinturas de autoria de Arnaldo Mecozzi que decoram os altares laterais: Fuga para o Egito, São José e o Menino e A Morte de São José – todas de 1918.

 

As pinturas murais estão em geral bastante danificadas, em conseqüência das infiltrações que, na época das chuvas, assumem proporções alarmantes. Sem exagero, pode-se considerar calamitosa tanto a situação do telhado e dos condutores de água pluviais, como a da parte elétrica, com fios antigos descobertos e encapados com pano, gerando sérios riscos de incêndio. Há consenso entre pároco e equipe de apoio no sentido de priorizarem-se esses dois pontos críticos – telhado e sistema elétrico – iniciando-se “do alto” as urgentes e necessárias reformas. Em seguida viria a recuperação das obras de arte – patrimônio cultural de toda a cidade.

 

Desde de 1996 está à frente da paróquia o jovem e entusiasta Pe. Adiair Lopes da Silva – Pe. Romano, como é mais conhecido – empenhado num trabalho que é de todos nós: a reconstrução do templo e a restauração das obras artísticas. “A igreja da Consolação não ficara de fora do movimento de recuperação do centro”, afirma, cheio de esperança, Pe. Romano.

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